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Eleições 2026: Quando a Política Vira Guerra, o Brasil Perde

Eleições 2026: Quando a Política Vira Guerra, o Brasil Perde

 

                   Eleições 2026: Quando a Política Vira Guerra, o Brasil Perde.                                                                        

                                                     

Por Moisés Laureano de Santana

Advogado: Especializado em Direito Público, Tributário e Eleitoral

Publicado em: 27 de agosto de 2026 às 16:25

 

As eleições de 2026 colocam o Brasil diante de uma escolha crucial que vai além das urnas: continuar alimentando a lógica destrutiva do “nós contra eles” ou recuperar a capacidade de discordar sem transformar adversários em inimigos.

A democracia pressupõe conflito. Afinal, eleições existem justamente porque os cidadãos pensam diferente, defendem projetos distintos e fazem escolhas que nem sempre coincidem. O problema começa quando a divergência deixa de ser política e passa a ser tratada como uma guerra moral — onde o adversário deixa de ser um oponente e passa a ser visto como um rival a ser destruído.

O Cenário Eleitoral de 2026 e o Raio-X da Polarização

A disputa presidencial de 2026 já reproduz uma forte divisão entre os principais campos políticos do país. Dados do Datafolha apontam que Luiz Inácio Lula da Silva lidera as intenções de voto no primeiro turno com 39%, seguido por Flávio Bolsonaro com 33%. Em um eventual segundo turno, o cenário se acirra para 47% a 43%. Ao mesmo tempo, ambos os candidatos registram altas taxas de rejeição: 45% afirmam que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto 46% rejeitam Flávio Bolsonaro.

Contudo, esses dados não significam que o país esteja dividido exatamente ao meio. Uma pesquisa da FESPSP revelou que 69% dos brasileiros não se enquadram no perfil de polarização afetiva estrita — caracterizada pela adesão cega a um grupo aliada à forte rejeição ao outro.

Existe uma parcela expressiva da sociedade que não cabe nas duas trincheiras que dominam o debate. A grande história de 2026 pode ser esta: o Brasil está menos polarizado do que parece, porém muito mais barulhento do que deveria.

1. A Política Transformada em Torcida

Durante muito tempo, votar significava escolher um projeto. Hoje, para grande parte do eleitorado, significa apenas rejeitar o outro lado.

Pesquisas indicam que 30% dos eleitores pretendem votar em um candidato principalmente para impedir a vitória do seu rival. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse voto de rejeição chega a 35%; entre os eleitores de Lula, a 23%. Por outro lado, 61% afirmam escolher seu candidato por considerá-lo o mais preparado ou por concordar com suas propostas.

Quando o voto é movido apenas pela rejeição, a política vira um plebiscito permanente. O candidato deixa de ser cobrado por propostas e precisa apenas parecer “menos assustador” que o rival.

2. O “Perception Gap” e o Inimigo Imaginação

A radicalização não ocorre apenas nos palanques; ela atravessa famílias, ambientes de trabalho e redes sociais. Rótulos como “petista”, “bolsonarista”, “comunista” ou “fascista” são usados para encerrar debates antes mesmo que eles comecem.

Um estudo da More in Common Brasil em parceria com a Ipsos-Ipec identificou o chamado perception gap (lacuna de percepção): a distância entre o que os grupos políticos realmente pensam e o que imaginam que o outro lado pensa. Lulistas e bolsonaristas tendem a enxergar seus adversários de forma muito mais radical do que eles realmente são. Na prática, a sociedade está combatendo versões imaginárias de seus concidadãos.

3. O Impacto da Inteligência Artificial e da Desinformação

Nas eleições de 2026, a polarização ganha contornos ainda mais complexos com o avanço da Inteligência Artificial. Conteúdos manipulados (deepfakes), áudios clonados e vídeos fora de contexto circulam em alta velocidade.

Os algoritmos das redes sociais tendem a amplificar conteúdos emocionais, de raiva e indignação. Quando qualquer fato inconveniente é taxado de “fake news”, a verdade perde valor — e vence quem grita mais alto.

Como Superar a Polarização e Preservar a Democracia

Superar o radicalismo não significa anular a esquerda, a direita ou criar um centro artificial onde todos concordam. Democracia saudável é conflito com regras, exigindo oposição firme, imprensa livre e instituições independentes.

A divergência de ideias quando pautada no respeito impulsiona o desenvolvimento social., gerada com IA
Fonte: Café com Sociologia

4. O Eleitor Precisa Sair da Arquibancada

Em vez de focar apenas em “quem é o meu candidato” ou “quem é o inimigo”, o eleitor precisa fazer perguntas mais profundas:

Qual é o projeto real para o país?

Como os problemas estruturais serão resolvidos?

A informação que estou compartilhando é verdadeira?

O fracasso de um governo não é vitória da oposição; é prejuízo coletivo. Quando a economia vai mal ou a segurança pública falha, toda a sociedade paga a conta.

5. O Custo Econômico e Social da Guerra Política

A radicalização permanente gera insegurança jurídica, afasta investimentos e paralisa reformas essenciais. Setores como Educação, Saúde, Segurança Pública, Proteção Ambiental e Responsabilidade Fiscal não podem ser reféns de disputas ideológicas ou de ciclos eleitorais.

6. O Adversário Não É Inimigo

A maturidade democrática exige saber perder sem considerar o país derrotado e vencer sem tentar exterminar a oposição. É perfeitamente possível combater ideias sem desumanizar pessoas, bem como criticar governos sem torcer pelo fracasso do Brasil.

Conclusão: A Escolha Silenciosa de 2026

Seja qual for o resultado das urnas em 2026 — com a vitória de Lula, Flávio Bolsonaro ou outro nome —, o Brasil continuará aqui no dia seguinte, enfrentando os mesmos desafios estruturais.

A eleição escolherá os governantes, mas caberá à sociedade decidir se deseja continuar vivendo em trincheiras. Quando a política vira guerra, não existem vencedores: o Brasil perde.