Banner 1 Banner 2
Instagram

Vladimir Safatle analisa o conceito de fascismo e sua aplicação na contemporaneidade

Vladimir Safatle analisa o conceito de fascismo e sua aplicação na contemporaneidade

 

O Medo das Palavras: Vladimir Safatle Adverte Contra a Recusa em Nomear o Fascismo Contemporâneo

O debate intelectual e político sobre a ascensão de movimentos de extrema-direita ao redor do globo ganhou um novo e contundente capítulo. Vladimir Safatle, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), lançou duras críticas à resistência generalizada de cientistas políticos, sociólogos e analistas da grande mídia em utilizar o conceito de “fascismo” para classificar os arranjos autoritários da atualidade. Para o filósofo, essa relutância em dar o nome correto ao fenômeno não se trata apenas de um rigor acadêmico excessivo ou de preciosismo metodológico, mas sim de um sintoma de paralisia intelectual que beira a cumplicidade analítica perante a derrocada dos direitos humanos.

Safatle argumenta que, ao domesticar o vocabulário e preferir eufemismos como “populismo de direita”, “conservadorismo radical” ou “iliberalismo”, a intelectualidade contemporânea acaba por naturalizar e suavizar práticas que possuem, em sua essência, a mesma matriz destrutiva dos regimes totalitários do século XX. O filósofo defende que o fascismo não deve ser tratado como uma peça de museu ou um evento histórico isolado, restrito geograficamente à Itália de Benito Mussolini ou à Alemanha de Adolf Hitler na década de 1930. O fascismo, em sua visão, é uma tecnologia política de gestão da violência que se transforma, se adapta e encontra terreno fértil dentro das próprias engrenagens das democracias liberais modernas.

A Evolução da Violência Estrutural: Do Colonialismo ao Fascismo Restrito

A tese central de Safatle para justificar a atualidade do termo reside na compreensão de que o fascismo contemporâneo não precisa, necessariamente, de um Estado totalmente totalitário para se manifestar. Ele opera por meio de uma dinâmica que o filósofo conceitua como fascismo restrito ou localizado. A linha do tempo abaixo reconstrói a transição histórica e a evolução desse modelo de dominação baseado na exclusão e na eliminação do outro:

 

1.A Raiz Colonial e o Estado de Exceção Permanente:Séculos XVI ao XIX.

As potências coloniais normalizam a barbárie, o genocídio e a desumanização de povos indígenas e escravizados nas colônias, criando territórios onde a lei civil comum jamais existiu.

2.O Fascismo Histórico e o Efeito Bumerangue:Décadas de 1920 a 1940.

As técnicas de violência e controle social testadas nas colônias retornam à Europa. O totalitarismo de Estado se nacionaliza, eliminando as liberdades democráticas no coração do Ocidente.

3.A Blindagem das Democracias Liberais:Final do Século XX.

O colapso dos regimes totalitários tradicionais força o autoritarismo a se metamorfosear. A violência de Estado é terceirizada e confinada a espaços geográficos e sociais marginalizados.

4.O Fascismo Restrito e a Necropolítica:Século XXI (Contemporaneidade).

Consolida-se o modelo onde o Estado mantém a fachada democrática para as elites, enquanto opera uma lógica de eliminação física e social de minorias em bairros periféricos e favelas.

 

O Cálculo Racional da Barbárie: A Conveniência da Exclusão

Um dos pontos mais polêmicos e lúcidos da análise de Vladimir Safatle diz respeito à desmistificação do perfil do apoiador desses movimentos autoritários. O senso comum e parte da academia costumam atribuir o voto na extrema-direita à ignorância política, à falta de acesso à informação ou a um surto coletivo de manipulação digital por meio de notícias falsas. Safatle rejeita categoricamente essa visão paternalista e ingênua, apontando que o suporte ao fascismo contemporâneo é fruto de um cálculo racional e consciente.

A lógica do privilégio: O eleitor ou apoiador de plataformas de corte fascista sabe perfeitamente o que está chancelando. Diante de cenários de crise econômica, escassez de recursos e colapso ecológico, esse grupo faz uma escolha pragmática: eles entendem e aceitam que, para que suas condições materiais de vida e seus privilégios de classe, raça ou gênero sejam preservados, é necessário que outros grupos humanos sejam ativamente sacrificados, despojados de direitos ou fisicamente eliminados. Não há engano; há concordância ideológica com a barbárie.

A Fratura Territorial da Democracia: Higienópolis versus Complexo do Alemão

Para contextualizar a aplicação prática desse conceito na realidade brasileira, Safatle propõe um exercício de geografia social e política que expõe a hipocrisia do pacto democrático do país. O filósofo argumenta que a própria definição de “democracia” no Brasil muda radicalmente de significado a depender do código postal ou da cor da pele do cidadão, tornando o discurso de igualdade perante a lei uma peça de ficção retórica.

O contraste territorial evidencia a dualidade do Estado brasileiro:

  • A Democracia Plena de Higienópolis: Em bairros nobres e de alta renda, como Higienópolis, nos Jardins ou no Leblon, as instituições liberais funcionam com precisão cirúrgica. Os direitos individuais são respeitados, o devido processo legal é a norma, a presença da polícia é sinônimo de proteção patrimonial e o direito de ir e vir é inquestionável. Nesses bolsões de privilégio, a sensação de normalidade democrática é real.

  • A Obscenidade Estatal no Complexo do Alemão: A poucos quilômetros de distância, em territórios periféricos como o Complexo do Alemão ou a Baixada Fluminense, a ideia de democracia é uma obscenidade. Nesses espaços, o Estado se manifesta quase que exclusivamente por meio do braço armado e letal. Invasões de domicílio sem mandado, execuções sumárias mascaradas como “autos de resistência”, helicópteros transformados em plataformas de tiro e o toque de recolher imposto pela violência armada são a rotina. Para as populações negras e periféricas, o fascismo nunca deixou de ser a forma padrão de governança estatal.

Raio-X das Vertentes: Comparativo do Fascismo Histórico e Contemporâneo

Para oferecer ao leitor do Portal 8k uma visão estruturada de como o autoritarismo se transformou ao longo das décadas, organizamos o quadro comparativo abaixo com base nas conferências e reflexões levantadas por Safatle:

Dimensão de Análise Fascismo Histórico (Século XX) Fascismo Contemporâneo (Século XXI) Manifestação no Cenário Brasileiro
Estrutura de Estado Totalitário, centralizado, partido único e destruição total das instituições burguesas. Híbrido, mantém a fachada institucional e as eleições regulares da democracia liberal. Utilização das leis de segurança e do aparato judicial para sufocar a dissidência política.
Alvo da Violência Dissidentes políticos declarados, judeus, comunistas e minorias em escala nacional. Segmentado, direcionado a grupos racializados, periféricos, indígenas e LGBTQIA+. Normalização de chacinas policiais nas periferias sob o pretexto da “guerra às drogas”.
Justificativa Ideológica Nacionalismo exacerbado, pureza ariana, corporativismo estatal e culto ao líder supremo. Defesa da “família tradicional”, pauta de costumes, neoliberalismo radical e meritocracia. Aliança entre o fundamentalismo religioso e o armamentismo civil de base miliciana.
Mecanismo de Controle Propaganda oficial de massas, censura prévia institucionalizada e polícia secreta (Gestapo). Guerra cultural, disparos em massa em redes sociais, linchamentos virtuais e algoritmos. Assassinato de reputações de professores, cientistas e jornalistas críticos ao regime.

O Desafio da Academia e o Papel do Jornalismo Independente

A conclusão de Vladimir Safatle funciona como um chamado de urgência para as universidades e para os veículos de imprensa que se pretendem sérios e comprometidos com a verdade factual. O filósofo insiste que o ambiente acadêmico precisa abandonar a covardia conceitual e atualizar suas ferramentas de análise. Continuar analisando a política do século XXI com conceitos engessados do século XIX é assinar uma certidão de irrelevância intelectual enquanto os direitos civis mais básicos são paulatinamente desmantelados.

Para o jornalismo independente, o desafio é igualmente hercúleo. Romper a barreira da naturalização da violência significa parar de tratar a morte de cidadãos periféricos como meras estatísticas de segurança pública e passar a denunciá-las como parte de um projeto político consciente de exclusão. A recusa em dar o nome correto às coisas — seja por medo de retaliação comercial, seja por apego a uma suposta neutralidade jornalística — apenas pavimenta o caminho para que o fascismo restrito continue avançando, quarteirão por quarteirão, até que não reste mais democracia alguma para ser defendida.