Alberto Gallo
Publicado em: 8 de abril de 2026 às 21:23
O encerramento do verão brasileiro, marcado pelas simbólicas “águas de março”, traz este ano um cenário de alta voltagem política e social. Enquanto a melodia de Tom Jobim fala em fechar ciclos, o noticiário nacional revela uma sociedade em disputa consigo mesma. Debates acalorados sobre identitarismo, liberdade de expressão e inclusão atravessam instituições que deveriam ser espaços de mediação racional, mas que hoje operam sob a lógica da polarização.
Neste ensaio, o autor Alberto Gallo propõe uma reflexão sobre como o avanço civilizatório tem sido, muitas vezes, substituído por mecanismos de coerção simbólica e silenciamento moral.
O Desafio da Comissão da Mulher e a “Tirania” do Discurso
Um dos episódios mais emblemáticos desse embate ocorreu na Câmara dos Deputados. A indicação de uma deputada trans para presidir a Comissão da Mulher gerou intensas críticas. Embora o partido proponente se autodenomine defensor da liberdade, a escolha foi vista por muitos como uma afronta à representatividade feminina biológica.
A prática parlamentar observada revela um sintoma de adoecimento social
Agressão moral: Críticas e opiniões contrárias são frequentemente rotuladas como ignorância.
Esvaziamento institucional: Uma comissão criada para proteger mulheres torna-se palco de hostilidade contra as próprias mulheres que divergem da pauta militante.
Censura: O uso do grito e o desligamento de microfones substituem o debate democrático e a persuasão racional.
Esfera Íntima vs. Esfera Pública
É fundamental distinguir a história sagrada de cada indivíduo — suas escolhas e vivências — da arena política deliberativa. Enquanto a vida privada exige respeito incondicional, a política deve legislar para o bem comum, e não a partir de experiências individuais isoladas.
Esporte Feminino e a Justiça da Competição
Outro ponto crítico deste ciclo é a participação de atletas trans em competições femininas. Dados empíricos da última década mostram que indivíduos com genética masculina mantêm vantagens estruturantes (densidade óssea e força muscular), mesmo após a transição hormonal.
Para preservar a equidade esportiva, propõem-se caminhos éticos:
Categorias Específicas: Criação de divisões que preservem a dignidade de atletas trans sem prejudicar a justiça competitiva feminina.
Revisão de Resultados: Reconhecimento do esforço de mulheres que competiram em condições desiguais.
Honestidade Intelectual: O esporte baseia-se na biologia; negar essas diferenças em favor de uma ideologia compromete o próprio sentido da competição.
A Complexidade de identitarismo sob a Lente Antropológica
Reconhecer limites biológicos não significa negar a realidade cultural. O mundo contemporâneo lida com múltiplas expressões de gênero, muitas delas já presentes na história antiga, como os hijra na Índia ou os fa’afafine na Polinésia.
Entretanto, o ativismo não pode ser usado como ferramenta para o negacionismo científico. A cultura e os modismos são transitórios e voláteis, mas a essência da natureza humana permanece. A inclusão madura deve acolher a diversidade sem impor unanimidade linguística ou coerção simbólica.
“Homem e Mulher os Criou”: O Fundamento da Doutrina Social
Ilustração gerada à partir da inspiração de Adão e Eva no Paraíso de Marc Chagall
A afirmação bíblica do Gênesis — “E Deus os criou homem e mulher” — oferece uma base antropológica sobre a dualidade sexuada e a responsabilidade humana. Mais do que teologia, trata-se de uma essência transcendental que chama o ser humano a transformar o mundo pelo trabalho e pela ciência.
De acordo com a Doutrina Social da Igreja, o desenvolvimento deve ser integral:Economia a serviço da pessoa: O trabalho como vocação, não Ilustração gerada à partir da inspiração de Adão e Eva no Paraíso de Marc Chagall
Justiça Ecológica: O cuidado com a “casa comum”.
Equilíbrio Social: Uma inclusão que proteja as minorias sem destruir o tecido social ou calar a liberdade de expressão sob o disfarce de combate ao preconceito.
Conclusão: O Caminho para uma Inclusão Humanista A verdadeira inclusão não se constrói com violência ideológica. Antes de qualquer rótulo, existe a pessoa concreta com dignidade inviolável. As “águas de março” de 2026 pedem maturidade para que possamos cultivar um mundo aberto à razão, ao cuidado e ao respeito mútuo.

