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Um exame de sangue para 50 tipos de câncer? Entenda o que ele realmente revela e onde falha

Um exame de sangue para 50 tipos de câncer? Entenda o que ele realmente revela e onde falha

O cenário global envolvendo o setor de Exame passa por momentos de profunda transformação. Diante dos fatos mais recentes, analistas e autoridades acompanham de perto os desdobramentos que impactam o mercado.

Desembarcou neste mês no Brasil um exame que promete rastrear cerca de 50 tipos de câncer a partir de uma única amostra de sangue, antes mesmo do aparecimento de sintomas.

Chamado Galleri, o teste começou a ser oferecido por meio de uma parceria entre o Einstein Hospital Israelita, o Grupo Fleury e a biotech norte-americana Grail, desenvolvedora da tecnologia.

Detalhamento dos Fatos e Contexto Atual

Trata-se de uma técnica conhecida como biópsia líquida, que busca no sangue sinais associados à presença de tumores, como fragmentos de DNA liberados por células cancerosas.

“Apesar do nome sofisticado, a tecnologia nada mais é do que uma forma de analisar a presença de proteínas de nosso interesse no sangue”, elucida Fernando Moura, oncologista e gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein.

Como esses fragmentos – ou “proteínas” — apresentam padrões que variam conforme o tecido de origem, o teste também pode estimar, por meio do sangue, em qual órgão ou região do corpo o câncer provavelmente está localizado. Essa informação ajuda a direcionar os exames necessários para investigar o possível tumor.

Ações de Regulamentação e Impactos no Setor

A proposta é ampliar as possibilidades de diagnóstico precoce. Afinal, muitos tipos de câncer só são descobertos depois que surgem sintomas, quando a doença pode já estar em estágio avançado.

Para muitos tumores preocupantes, inclusive, não existem métodos de rastreamento estabelecidos para pessoas sem sintomas, como os de pâncreas e fígado.

É nesse cenário que entra o Galleri. “A novidade é conseguir detectar essas frações de DNA tumoral no sangue de pessoas que nem suspeitam que estejam com câncer”, explica Mouro.

Perspectivas Globais e Próximos Desdobramentos

O exame, portanto, é considerado uma mudança de paradigma. “É uma revolução. Todas as gerações futuras vão conviver com esse tipo de estratégia, assim como hoje convivemos com a mamografia e outras técnicas”, considera o médico.

Mas a tecnologia ainda é nova e tem limitações importantes. Por exemplo, ela pode deixar passar alguns cânceres, apresentar falsos negativos e, até o momento, não há evidências de que seu uso reduz significativamente os diagnósticos da doença em estágios avançados.

Os estudos do Galleri se concentraram em pessoas com 50 anos ou mais, sem sintomas de câncer. Portanto, ele é voltada para qualquer um nesta faixa etária que tenha interesse em realizá-lo.

A ideia é que ele se torne um exame de rastreio, ou seja, de rotina.

Hoje, só existem cinco testes para detectar câncer antes que sinais apareçam: a mamografia, o papanicolau, o exame de próstata, a colonoscopia e, no caso dos fumantes, a tomografia de tórax.

Todos são procedimentos que temos data marcada para fazer. E, agora, pela bagatela de R$6.900,00, o Galleri também pode entrar na sua lista.

O teste só não é indicado para gestantes ou pessoas que tiveram câncer nos últimos três anos. Também não há evidências de sua eficácia em pessoas mais jovens, por isso, não é recomendado para quem tem menos de 22 anos.

Em relação aos altos custos, Moura explica que, apesar dessa limitação atual, há boas expectativas para o futuro. “Como se trata de uma tecnologia nova, ainda há dúvidas sobre como sua utilização em larga escala afetará os custos e os resultados dos programas de rastreamento”, considera.

Normalmente, quando se fala em biópsia, a imagem que vem à cabeça é a retirada de um fragmento de tecido para análise em laboratório. Mas, na biópsia líquida, a investigação é feita a partir de uma amostra de sangue.

Não é bem uma novidade. O método já é usado em consultórios de oncologia. Técnicas com eficácia comprovada têm como foco a detecção de mutações específicas em cada tipo câncer ou a determinação de um prognóstico após o diagnóstico da doença.“Ela nos permite descobrir o ‘sobrenome’ de um câncer após o diagnóstico”, comenta Moura.

Mas o teste Galleri é bem mais ambicioso e considerado o mais promissor da nova classe de exames para detecção precoce de múltiplos tipos de câncer.

Ele foi desenvolvido para procurar sinais associados a cerca de 50 tipos de câncer, incluindo de pâncreas, esôfago, fígado e cabeça e pescoço, além de leucemias e linfomas.

Resultados do estudo britânico NHS-Galleri, que avaliaram a eficácia da tecnologia, foram apresentados na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO, na sigla em inglês) e publicados em 22 de setembro de 2026 em duas revistas científicas, The New England Journal of Medicine e Nature Medicine.

O artigo da Nature Medicine avaliou a capacidade do teste de detectar sinais de câncer e prever sua provável origem. Na primeira rodada de rastreamento, 722 dos 70,3 mil participantes, todos sem sintomas da doença, tiveram resultado positivo — cerca de 1% do total.

Entre os participantes que tiveram resultado positivo e foram posteriormente diagnosticados de forma definitiva com câncer, o teste indicou corretamente a provável origem do tumor em 91,9% dos casos.

Já o artigo que saiu na The New England Journal of Medicine teve outro foco e acabou trazendo informações importantes sobre os limites da tecnologia.

Apesar de acertar no tipo de tumor, o exame não tem uma sensibilidade perfeita — isto é, a capacidade de identificar o câncer quando ele está presente. Essa habilidade varia conforme o estágio do tumor.

Em pesquisas, o Galleri detectou cerca de 40% dos cânceres em estágio 1 e 70% daqueles em estágio 3. Em outras palavras, a capacidade de detecção é menor quando a doença está no início, justamente a fase em que se espera que o diagnóstico precoce traga mais benefícios.

Isso acontece, em parte, porque tumores maiores tendem a liberar mais fragmentos de DNA na circulação sanguínea, o que facilita a identificação pelo teste.

Além disso, a capacidade de identificação muda de acordo com o tipo de câncer. “Os cânceres de tireoide e o de rim têm uma menor chance de jogar na circulação o DNA tumoral do que, por exemplo, o câncer de pâncreas, o melanoma e o de estômago”, exemplifica Moura.

Por isso, um resultado negativo não descarta a presença de tumores. A pessoa pode ter a doença mesmo que o exame não encontre sinais associados a ela.

O resultado positivo também exige cautela. Ele indica que foram encontrados sinais que podem estar relacionados a um tumor, mas não confirma que a pessoa está com câncer.

Nesse caso, é necessário investigar a região apontada pelo teste com exames complementares. Se houver uma alteração suspeita, o médico poderá solicitar exames de imagem, procedimentos endoscópicos ou uma biópsia convencional, conforme a situação.

O artigo publicado no The New England Journal of Medicine investigou o uso da biópsia líquida para rastrear múltiplos tipos de câncer. O principal objetivo era verificar se a estratégia reduziria os diagnósticos de tumores nos estágios 3 e 4, considerados mais avançados.

O estudo, porém, não encontrou uma redução estatisticamente significativa desses diagnósticos no grupo submetido ao exame. Por causa disso, o resultado foi considerado “frustrante” para muitos oncologistas.

Mas, há dados positivos. “Embora o desfecho primário não tenha sido atingido, foram identificados outros resultados que sugerem benefícios potenciais”, diz Edgar Gil Rizzatti, presidente de Unidades de Negócios Médica, Técnica, Hospitais, Novos Elos e Inovação do Grupo Fleury.

Entre os resultados secundários, o exame levou a uma redução no número de diagnósticos urgentes de câncer, como os identificados durante atendimentos hospitalares motivados por complicações da doença.

Além disso, na pesquisa, o grupo que realizou a biópsia líquida também apresentou mais diagnósticos de câncer nos estágios 1 e 2 do que aqueles que fizeram exames tradicionais.

Os tumores para os quais já existem estratégias de rastreamento foram detectados em uma proporção quatro vezes maior em comparação com o grupo que recebeu apenas o rastreamento convencional.

Rizzatti pondera que todo exame diagnóstico envolve um equilíbrio entre sensibilidade, capacidade de detectar quem realmente tem câncer, e especificidade, capacidade de identificar corretamente quem não tem câncer.

“Quando se aumenta a sensibilidade, em geral a especificidade diminui“, diz. Assim, aumentar a capacidade de identificar quem realmente tem a doença pode elevar também o número de falsos positivos.

No caso do Galleri, diz Rizzati, a estratégia foi priorizar a especificidade, reduzindo esse risco e aumentando a confiabilidade de um resultado positivo em pessoas sem sintomas.

Um futuro atalho para chegar ao tratamento

Descobrir um câncer no início pode facilitar o tratamento. Quando a doença ainda está limitada ao órgão onde surgiu, por exemplo, pode ser possível retirar o tumor por cirurgia antes que ele atinja outras partes do corpo.

Em muitos casos, isso aumenta as chances de cura. Dependendo do tipo de câncer, também podem ser necessários tratamentos como quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia, sozinhos ou combinados.

Ainda assim, descobrir a doença cedo não garante a cura. Por isso, para saber se um exame de rastreamento realmente ajuda, é preciso avaliar se ele reduz as mortes pela doença e melhora a qualidade de vida, e não apenas se encontra mais tumores.

O Galleri busca detectar diferentes tipos de câncer em uma única coleta de sangue, inclusive alguns que não têm exames de rastreamento estabelecidos. Mas ainda é necessário demonstrar que os efeitos do seu uso na redução de mortalidades.

Até lá, ele segue sendo uma importante e útil revolução, mas não deve substituir os exames preventivos já recomendados.

Manual anticâncer: 14 formas de evitar a doença

Considerações Finais

A evolução contínua dos acontecimentos em relação ao tema exame reforça a necessidade de acompanhar as atualizações do setor.

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